Empreendedorismo jurídico: descubra as oportunidades e os desafios

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Tempo de leitura: 5 Minutos

*Por Caroline Francescato

Se você está no mercado jurídico ou estudando para entrar nele, prepare-se: você terá que ser um empreendedor jurídico.

Comece pensando sempre nesse pressuposto: você é um empreendedor jurídico, independentemente do caminho que você trilhar hoje ou no futuro.

Afinal, você precisará saber temas como marketing digital, inovação e gestão, por exemplo. E essas habilidades independem da área que você seguirá, seja concurso público, advocacia ou outros ramos.

Em dissonância ao discurso de que “você precisa empreender no Direito, pois não há mais vagas no mercado de trabalho amplamente saturado”, o que falta na realidade são profissionais qualificados para atender demandas cada vez mais complexas e clientes mais exigentes.

Como usar a tecnologia a seu favor?

Esse cenário se dá devido ao surgimento de tecnologias como Inteligência Artificial, capaz de executar tarefas mais simples ligadas ao setor, fazendo com que os advogados passem a atuar nos casos mais complexos. 

É nesse momento que, além de um bom currículo na área do Direito, entra a necessidade de desenvolvimento das habilidades empreendedoras. Só assim os profissionais poderão destacar os seus bons perfis. 

Afinal, apenas não existe espaço para aquele profissional que não está apto à inovação e às novas competências que o mercado está exigindo – e, por isso, a preparação para o mundo dos negócios é uma delas. 

Atualmente são mais de 300 mil pessoas estudando para seguir a carreira jurídica. 

Infelizmente, a maioria delas não passou por disciplinas nas faculdades que mostram o quanto o Direito deve ser encarado como um negócio. Também não foram ensinadas a preparar o seu perfil para atender a essas demandas do mercado.

Pensando nesse cenário, o empreendedorismo jurídico é um movimento que todos devem pertencer e explorar, independentemente de possuírem seus negócios jurídicos próprios ou não. 

Analisando a maioria dos fundadores de legaltechs presentes no radar da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), percebe-se que são profissionais com formação jurídica.

Por isso, vamos a algumas dicas que podem ajudar você a começar a trilhar um caminho mais empreendedor no mundo jurídico e na advocacia!  

  • ESTUDE SOBRE TEMAS COMO INOVAÇÃO

Se você quer praticar o empreendedorismo jurídico, dê espaço para a inovação. Esteja sempre ligado nas tendências que estão acontecendo no Brasil e no mundo. 

E inovação não se fala apenas em tecnologia. Inovar é também mudar a maneira de advogar, ou seja, isso é uma forma de ser um advogado empreendedor.

Veja um exemplo simples de inovação na área jurídica: duas advogadas abriram um escritório de advocacia e começaram a atender casos de idosos, os quais procuravam elas pela paciência e atenção no serviço prestado. 

Então, elas começaram a analisar o mercado e viram que era um público totalmente desassistido de profissionais e decidiram especializar os casos do escritório de advocacia em demandas específicas  para pessoas idosas. 

Isso é inovar: analisar a demanda do mercado e atuar de forma que sua prestação de serviço atenda as demandas latentes, para que você crie um mercado totalmente inexplorado. 

Não precisamos reinventar a roda, mas sim criar opções melhores e que atendam a uma necessidade. 

No caso delas, foram os idosos que precisavam de advogados mais pacientes e atenciosos no atendimento. E, como mágica, você tem um ótimo nicho em suas mãos.

  • A JORNADA DO SEU CLIENTE

Muitos advogados não se atentam à jornada do seu cliente. Essa é uma habilidade crucial se você quer ser um empreendedor jurídico e estar inserido na nova economia. 

Inclusive, pode se dizer que cuidar da jornada do cliente é estar atualizado ao cenário tecnológico.

Nesse momento, surge o medo de que a tecnologia pode acabar com os advogados e diminuir ainda mais as oportunidades da área. 

Na verdade, o profissional empreendedor não pensa dessa maneira. Pelo contrário, ele imagina como essas novas ferramentas poderão ajudar na jornada do seu cliente e lhe gerarão mais negócios.

A tecnologia jurídica está nascendo para que tarefas mais simples sejam feitas por máquinas, enquanto os advogados poderão se deter a casos mais complexos. 

Assim, essa evolução entrega agilidade ao profissional. E nós sabemos que cliente satisfeito é aquele que tem o processo resolvido da forma mais rápida e menos onerosa.

Então, outra dica importante para adentrar no empreendedorismo jurídico: avalie a jornada do seu cliente e a experiência que seu serviço está dando a ele. 

Encaixe nessa jornada as tecnologias advindas de lawtechs e legaltechs para que melhorem essa jornada e lhe traga cada vez mais produtividade. 

  • MARKETING DIGITAL

Segundo pesquisa do Google sobre o perfil do consumidor, 96% das pessoas pesquisam por nomes de profissionais antes de efetivar uma contratação. Seja para descobrir indicações ou mesmo a reputação on-line do profissional. 

Isso significa que se você quer ser um empreendedor jurídico, é importante estar presente no ambiente digital, seja através de um site ou de redes sociais.

Procure buscar conhecimento sobre como escrever conteúdos de qualidade que vão melhorar seu posicionamento na internet e atrair cada vez mais possíveis clientes interessados no seu conhecimento jurídico. 

Gere autoridade e influência através destes materiais bem estruturados e que vão lhe aproximar de possíveis consumidores para seus serviços jurídicos.

Muitos profissionais têm receio de adentrar nessa seara do marketing digital com medo de infringir o Código de Ética da Advocacia. Mas salientamos que é possível você utilizar dessa ferramenta sem desrespeitar as condutas éticas. Por isso, pesquise e se informe como você pode explorar essa habilidade. 

  • FIQUE DE OLHO NAS NOVAS ÁREAS

Assim como qualquer profissão, devemos sempre nos manter atualizados das novas tendências do segmento e quais as novas demandas o consumidor está buscando. 

Nesse cenário, estar sempre ligado nas notícias e novas áreas do mundo jurídico é extremamente necessário. Muitas vezes, isso se dá através da análise de notícias diárias do país e do mundo. 

Por exemplo, o aumento dos casos de Compliance foi algo notável após a crise política do Brasil e as empresas precisaram buscar profissionais com conhecimento no setor. Quem percebeu essa necessidade emergente, conseguiu desenvolver um bom segmento de mercado.

Outros exemplos de áreas curiosas que vem surgindo junto com a tecnologia são:

  1. Direito Espacial e Aéreo: com o aumento de tecnologias como drones, carros voadores e avanço de softwares espaciais, novas normas terão que ser criadas e consequentemente novas áreas no Direito surgirão.
  2. Biosegurança: com o aprimoramento de novas tecnologias na área médica e da ciência, este também será um tema cada vez mais explorado. 
  3. Direito Digital e da Internet: como já comentamos, cada vez mais a população mundial está conectada e presente no on-line, criando novos mundos de convivência e relações sociais que com certeza terão que vir acompanhadas de legislação específica. 

LEGALTECHS X EMPREENDEDORISMO JURÍDICO

Mas digamos que você leu todas essas dicas e quer se aventurar a resolver um problema jurídico através da tecnologia e montar uma empresa, como a maioria dos fundadores de legaltechs presentes no radar da AB2L fizeram.

Você quer usar os seus conhecimentos jurídicos e seu entendimento do mercado para expor novas ideias de negócio. Então, some todas as dicas acima e preste atenção nestas tendências:

  • LGPD 

Em agosto de 2020, entrará em vigor a Lei Geral de Proteção de Dados, que vai impactar o processo de muitas empresas para extrair, coletar e armazenar dados de cidadãos. 

Com o entendimento da legislação e das necessidades, surge um segmento com muitas oportunidades para aplicação de tecnologia no cumprimento desses requisitos legais. Nada melhor do que unir conhecimento legal e tecnologia para suprir essa demanda emergente do mercado.

  • JURIMETRIA

Outra área que ainda tem muitos nichos a serem explorados é a Jurimetria, a tecnologia que aplica estatísticas ao Direito para prever resultados e oferecer probabilidades e valores envolvidos na análise. 

Acontece que para sua aplicação adequada é necessária a análise de dados de específicas áreas e quem tem esse conhecimento são os operadores do Direito, que sabem exatamente as melhores formas de buscar por essas informações. 

Essa é outra área que pode ainda ser muito explorada com união de tecnologia e Direito.

  • LEGAL DESIGN THINKING

Outro mercado em ascensão para empreendedores jurídicos é o de aplicação de soluções criativas para os casos jurídicos, aquilo que chamamos de Legal Design Thinking

Essa nova abordagem de resolução de casos virou tendência e também aliada ao conhecimento jurídico é ainda mais eficiente. 

Afinal, o profissional utiliza seu conhecimento de todo o processo de litígio e suas habilidades em “design” e ferramentas de resolução de conflitos criativas, para resolução dos casos de forma mais eficiente. 

Muitos profissionais jurídicos estão desenvolvendo então suas “skills” de empatia e colaboração para juntamente com escritórios de advocacia e departamentos jurídicos criarem novas abordagens. 

Por exemplo, contratos com linguagens mais dinâmicas e informativas. Até mesmo através de elaboração de peças processuais mais atrativas e objetivas.

Esses são apenas alguns dos exemplos de aplicação dessa ferramenta e com certeza é uma área de potencial gigante para quem quer se aventurar no empreendedorismo jurídico. 

  • CIVITECHS

Tema do momento, as chamadas “Civic Techs”, são empresas de tecnologia que melhoram o relacionamento entre pessoas e instituições, dando mais voz para que elas participem das decisões e melhorem a prestação dos serviços.

Um exemplo dessa aplicação são as empresas que estão automatizando e aplicando tecnologia à resolução dos casos envolvendo indenizações de companhias áreas, tornando mais eficiente para as partes que foram lesadas e evitando passivos maiores às companhias. 

Pouquíssimo explorado e com poucas empresas em atuação, este segmento tem muito espaço para profissionais jurídicos que conhecem o fluxo do processo e os gargalos para aplicação de tecnologia. 

COMO COMECEI MINHA LEGALTECH?

Na época em que tive a ideia de criar uma rede social jurídica, eu nem imaginava o que era ter uma legaltech. 

Deparei-me com o problema de ser uma jovem advogada, com um escritório próprio e que precisava destacar meu perfil no mundo on-line, não apenas para captar novos clientes, mas para fazer networking com outros profissionais que estivessem enfrentando os mesmos casos que os meus. 

Então em uma tarde, desenhei uma plataforma on-line que resolveria essas minhas demandas e decidi pesquisar sobre estruturação de negócios e avaliação de mercado. Após a pesquisa, vi a necessidade de montar um plano de negócios e, de forma resumida, surgiu o LinkLei.

Vendo que a plataforma ajudaria, não apenas a mim, mas a outros profissionais a se conectarem uns com os outros e a gerarem mais oportunidades, decidi colocar a ideia em prática. 

Com o plano de negócios estruturado e um pitch deck em mãos, apresentei o projeto para uma Aceleradora. O projeto foi acelerado com a junção de tecnologia e negócio. Em maio de 2018, a rede social foi ao ar para os primeiros cadastros. 

Mantive o escritório de advocacia por um tempo, mas com a expansão do LinkLei e o recebimento de aportes financeiros, há um ano estou me dedicando em tempo integral ao negócio. 

E o que descobri é que utilizei dos meus conhecimentos do mundo jurídico e das necessidades dos advogados para abrir um negócio. E, com certeza, os advogados e profissionais formados em Direito podem fazer o mesmo. 

Isso significa aplicar seus conhecimentos para resolver problemas jurídicos e adentrar em um mundo de novas oportunidades.  

  • DICA FINAL: COMECE HOJE!

Depois de concluir que todos nós somos empreendedores jurídicos, você deve escolher o segmento que você aplicará essas habilidades. Não acredite apenas que o mercado está saturado. 

Na verdade, ele está passando por uma mudança. O Direito está se reinventando e mais do que nunca você terá que encará-lo como um negócio, independentemente do caminho que você percorrerá.

Portanto, se você ainda não se sente preparado para este novo momento, o importante é que você comece! Não fique restrito ao uso da tecnologia ou a ter uma empresa para ser um empreendedor jurídico. 

Procure conhecer novas áreas, tendências e ver a evolução de outras legaltechs. Com certeza, você terá ótimas chances de ser um profissional bem-sucedido na área jurídica. 

 

Caroline Francescato é Sócia e Fundadora da rede social LinkLei, empreendedora e advogada. Formada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), assim que concluiu a graduação, decidiu empreender na advocacia. Abriu o primeiro escritório especializado em Direito de Família, Sucessões e Homoafetividade da cidade de Caxias do Sul. Atuou durante três anos no CF Advocacia. Também é mentora do Founder Institute.

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